Ataques xenofóbicos revelam abandono do Estado nas regiões mais afastadas do Brasil

Venezuelanos chegam ao Brasil pela cidade de Pacaraima, em Roraima. Foto: EBC

Por: Débora Braga

Débora Braga. Educadora e Ativista no Brasil e na Colômbia

As cenas chocantes retratadas diretamente de Pacaraima em Roraima na semana passada revelam o abandono do Estado Brasileiro nas regiões mais afastadas das grandes cidades.  O local se transformou em uma zona de conflito entre brasileiros e venezuelanos  estes atingidos com pedradas, ataques com bombas de gás improvisadas, incineração de pertences de refugiados e vandalização de carros dos moradores locais.

Grupos de brasileiros iniciaram uma perseguição violenta a refugiados venezuelanos que vivem na cidade de Roraima, queimando seus pertences após um comerciante local ser surrado em uma tentativa de assalto na véspera do episódio. Agredidos com pedaços de pau, os refugiados foram expulsos das tendas que ocupavam na região na fronteira do Brasil com a Venezuela. Este episódio nos mostra o quanto o Estado ainda é falho para manter o mínimo de dignidade e do senso de civilidade nas regiões mais afastadas do nosso país.

A mais de 5 mil quilômetros de Roraima, as comunidades residentes na Ilha Grande-RJ, passam por semelhante situação de abandono do Estado Brasileiro. Em Praia da longa, onde há mais de 30 anos coordeno um trabalho voluntário de revitalização e desenvolvimento da dignidade humana, esta que é uma das remotas regiões habitadas por brasileiros no arquipélago do Rio, o braço do Estado também não assegura o básico para estes cidadãos existirem de forma digna.

A verdade é que a Ilha Grande está mais ameaçada que nunca. Niilismo, drogadição, desemprego. As ameaças vêm de todos os lados: turismo         invasivo, pesca predatória, pre-sal, entre outros. Todos estes fatores e a ausência completa do Estado fazem com que as pessoas que residem nesta região percam sua identidade, suas raízes, referências e valores. Como educadora, ao longo do tempo, pude perceber a importância que pequenos gestos tem para retomar a dignidade dessas pessoas.

Em 2017 eram mais de 30 famílias (aproximadamente 200 pessoas) vivendo em Praia da Longa que fica a pouco mais de uma hora de Angra dos Reis, mas o local não dispõe de postos de saúde, ou em caso de ato violento, ou necessidade de vida ou morte, a defesa civil nem sempre  não chega a tempo. A sensação de abandono nesta e em outras comunidades localizadas nos rincões do país é um fator essencial que precisa ser observado de perto por nossas autoridades, sobretudo neste tempo de grande inquietação global em que comunidades estão buscando refúgio fora de seus países de origem.

Ou nos atentamos agora para a realidade destas comunidades ou o Brasil inteiro fracassará enquanto povo, enquanto país. Não haverá outro momento que não este, para buscarmos de fato solução para os problemas sociais, culturais, econômicos e a devastação da dignidade humana presente nestas regiões mais afastadas do nosso gigantesco Brasil.

Débora Braga, tem 57 anos, é natural de São Paulo. É Professora Montessoriana (Especialização na área da educação docente), Pedagoga e ativista pelos direitos da pessoa humana. Há mais de 30 anos dirige o projeto iniciado por sua mãe, a ativista Vera Lúcia Braga, na praia do longa localizada na Ilha Grande-RJ. Também, há nove anos, coordena o mesmo projeto de restauração da dignidade humana na zona cafeeira da Colômbia. Atuou por 12 anos na Multinacional Farmacêutica alemã, Hoechst do Brasil.  Presidiu as Associações de Professores, Pais e Alunos – PTA na Westminster School, localizada no México e a PTA da Nicholas School localizada em São Paulo.  Fala Francês, Alemão, Inglês, Espanhol e Português.