Aterrorizada pela violência classe média brasileira procura abrigo na Europa

Vista aérea da Gran Vía, em Madri (Thinkstock)

“Quando eu estava grávida, morava em uma região considerada rica eles colocaram uma arma na minha cabeça.” Assim como Juliana, cada vez mais brasileiros emigram para escapar da crescente violência. A Europa é vista como um refúgio.

Viver no exterior é o desejo de 62% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos, segundo uma pesquisa recente divulgada em junho. Não há dados exatos sobre o número de pessoas que deixaram o Brasil nos últimos anos, embora o Ministério das Relações Exteriores seja responsável por mais de três milhões. Dados do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Secretaria das Nações Unidas, mostram que 1,6 milhão de brasileiros residiram longe de seu país no primeiro semestre de 2017, 3,5% a mais que em 2015. Destes, a maioria estabelecida na Europa, onde no ano passado havia cerca de 635.000 brasileiros. Entre os países preferidos estão os Estados Unidos (22%), Japão (12,8%), Portugal (8,4%), Itália (6,5%) e Espanha (6,2%).

“Dois anos atrás, dois homens armados entraram na casa onde trabalhamos, eles me imobilizaram junto a dois amigos e levaram todos os computadores e telefones celulares. Continuamos em seu poder, em pânico e depois incomunicáveis. Eu entrei num estado de fobia e paranóia. Saí da casa onde trabalhei e nunca mais me senti calma no Rio de Janeiro”. Depois dessa experiência, Lívia Amorim, produtora e estilista, originária de Campos dos Goytacazes, a 275 quilômetros do Rio de Janeiro, resolveu se estabelecer em Barcelona com seu namorado espanhol, que administra um restaurante.

“Naquele mesmo ano, um jovem armado roubou meu celular enquanto caminhava por uma rua cheia de gente, às 12 horas. O terror me pegou, chorei muito, senti medo de novo, paranoia e a sensação de estar quebrada por dentro. Foi quando decidi me mudar para a Espanha “, acrescenta a profissional de 39 anos, que teve que se separar de seus dois filhos de 20 e 14 anos, porque não quiseram segui-la. “Não tem sido fácil, nem é agora, mas na Espanha eu vivo sem medo, hoje eu tenho uma mistura de alívio e culpa.”

A novidade neste novo ciclo migratório é que o medo da violência e a busca por segurança se tornaram um dos principais incentivos, juntamente com a crise econômica. antropólogo americano Maxine Margolis, um professor emérito da Universidade da Flórida e autor do livro ‘Adeus, Brasil: Emigrantes Brasileiros no Mundo’, observa que nos últimos meses tem aumentado significativamente o número de pessoas que migram por causa dos crimes e roubos. Os números falam por si: em 2017, 62.517 mortes violentas foram registradas no Brasil – a taxa de homicídios no país tropical excede a média europeia em 30 vezes.

“No lugar onde cresci, as pessoas não se limitam a bater em você. Eles matam você e não importa se você lhes der o que eles pedem. Minha mãe estava sempre preocupada comigo desde o momento em que saía de casa até voltar à noite. Ela me ligava várias vezes ao dia. Hoje, embora eu esteja longe, parece muito mais tranquilo “, assegurou o jovem Arthur Mateu, de 25 anos, morador do bairro paulistano do Morumbi, região de classe média-alta onde também existe uma favela chamada Paraisópolis. “É uma das gravuras que melhor sintetizam os contrastes entre riqueza e pobreza no Brasil”, acrescenta esse jovem.

Arthur, que agora mora em Barcelona e trabalha em uma conhecida empresa de bricolage, admite que deixou o Brasil em março em busca de uma oportunidade profissional, mas também por causa do medo constante que sentiu em sua cidade. “Meu sonho desde pequeno era sempre ter uma moto grande e nunca poderia fazê-lo por causa do medo que sentia e ainda sinto no meu país. O pior é que os brasileiros se acostumaram a isso e normalizaram essa realidade. E eles acreditam que amanhã será ainda pior “, pondera.

Segundo o jovem, a violência, a falta de investimento na educação e nas perspectivas de emprego levaram à sua saída do país tropical. “Eu não nasci para viver com medo. Agora me preocupo com os parentes que deixei lá: meus pais, meu irmão, meu sobrinho. Mas aqui em Barcelona posso voltar para casa às 3 da manhã a pé ou de metrô, mesmo falando no celular. De vez em quando alguém avisa que há ladrões, mas se você for um pouco cuidadoso, nada acontece com você “, acrescenta.

FUGA DA VIOLÊNCIA

“Eles me roubaram na Vila Mariana [área nobre de São Paulo] quando eu estava grávida de oito meses, eles colocaram uma arma na minha cabeça”, diz a brasileira Juliana Perrelli.

“A violência influenciou muito a decisão de mudar para a Espanha com a minha família. Em São Paulo nós tínhamos um carro blindado e eu estava com medo de ser agredida com minha filha. Eu morava na Vila Mariana [uma das áreas nobres da cidade] quando eu estava grávida de oito meses. Eles colocaram uma arma na minha cabeça. Desde então, tornei-me neurótica. Eu amo o Brasil, mas à procura de um futuro melhor para a minha filha mais livre e sem violência “, diz Juliana Perrelli, 40 anos, e formada em moda, de Barcelona que atualmente trabalha remotamente para uma empresa na Índia.

Ainda no Brasil, muitos se preparam para atravessar a lagoa e começar uma vida sem medo. Gustavo Pinelli é outro rosto desse êxodo maciço. Em 8 de agosto, ele chegará a Madri com sua esposa e dois filhos, uma menina de três anos e um bebê recém-nascido. “Eu acredito que a crise econômica é temporária. No Brasil nós tivemos vários. É algo cíclico, mas no final sempre acontece. No caso da violência, não temos uma perspectiva de melhoria a curto prazo. Falta de educação e muitas coisas básicas entre a população. A miséria que temos aqui é tão grande que é lógico que a violência exploda “, diz Gustavo, descendente de espanhóis.

Dono de uma agência de turismo no Rio de Janeiro, Gustavo também traz junto com sua esposa uma empresa de catering que serve omelete e paella espanhola nos eventos culturais e musicais da Cidade Maravilhosa. “Quando o programa de pacificação começou nas favelas do Rio, passei a acreditar que as coisas poderiam mudar, embora já tenha sido dito que, após o término dos grandes eventos esportivos, tudo voltaria a acontecer. O que vemos hoje é que o Estado do Rio de Janeiro está falido e que não há perspectivas. Há cada vez mais violência e uma profunda crise política. No meu bairro há assaltos em todas as horas “, relata este futuro imigrante de 41 anos.

De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), a violência no Rio de Janeiro registrou os piores dados dos últimos 30 anos em seis categorias: roubo de cargas, veículos, celulares e caixas eletrônicos, além de roubos a transeuntes e nos ônibus.

Com informações: El Confidencial